Um Rosto de Mulher (1941)
Dirigido por George Cukor, logo depois do icônico “The Philadelphia Story”, “A Woman’s Face” é um filme conduzido com extrema elegância, elevado por uma atriz de presença inconfundível.
No tribunal, o juiz escuta diferentes testemunhas. A cada perspectiva, introduzida por meio de uma fusão, o quebra cabeça se aproxima de sua completude. A estrutura funciona para o estudo da protagonista e demonstra uma certa ambição por parte dos realizadores, mas não é primordial para o funcionamento da narrativa – poderíamos ver a mesma história linearmente sem problema algum.
Anna Holm está sendo acusada de assassinar Torsten Barring. Seu rosto, devido a uma queimadura, tem uma enorme cicatriz. Tratada com pena e desprezo pela maioria das pessoas, Anna decidiu se vingar do mundo, tornando-se uma mulher fria, amarga e que chantageia os outros, cometendo pequenos golpes. Ela está sempre com roupas pretas e um chapéu que cobre o lado ferido de seu rosto. Cukor, num gesto de empatia e que ressalta a vergonha que a protagonista sente de si, opta por planos de perfil e, por vezes, a enquadra de costas. As sombras são intensas, sendo responsáveis, inclusive, por introduzir Anna. Além de reforçar o anonimato que ela deseja manter, as sombras cumprem uma função moral: afinal, estamos falando de uma chantagista profissional. Em seu arco, Anna conhece dois homens que determinarão seu futuro. Barring, um golpista esperto, é a primeira pessoa a olhar para a protagonista com carinho, ignorando sua cicatriz e demonstrando algum tipo de afeto. Gustaf Segert é um médico. Casado com uma das mulheres que Anna chantageia, ele fica interessado por seu caso e se coloca à disposição para operá-la.
Segert liberta a beleza superficial, tornando-a socialmente aceitável. Mas esse não é o seu objetivo; desde o momento em que a viu, tudo que ele tenta encontrar é um rastro de bondade e empatia. Barring, sabendo que a tem em suas mãos, decide dar início a planos mais ambiciosos, que dependem de uma aparência específica. Agora, Anna para na frente de espelhos, é observada por rapazes na rua e até arranca risadas de uma criança. Livre da “maldição”, ela está entre o bem e o mal. Segert não quer ser o novo Dr. Frankenstein, responsável por soltar um monstro charmoso na sociedade. Antes da cirurgia, Cukor já cria um embate entre o médico e o golpista. É graças a eles que vemos o rosto inteiro de Anna, em close-ups fortemente iluminados – a luz, aqui, diz muito sobre a confiança que ela deposita em ambos. A fim de ficar com a herança de seu tio, Barring precisa eliminar seu sobrinho, Lars-Erik, de apenas quatro anos. Anna teria que ser sua governanta e, assim que possível, executar o plano. Esse é o teste definitivo. Somente um monstro seria capaz de assassinar uma criança. A protagonista tenta se manter imune a Lars-Erik, mas logo se vê encantada por sua doçura. Crawford é uma atriz muito expressiva. Em momentos silenciosos, podemos sentir o tormento e as reviravoltas emocionais que se passam em seu rosto e em sua alma.
Em uma sequência de dança, a sobreposição de imagens do piano e dos planos fechados de Barring e Anna forma uma atmosfera opressiva. A protagonista sabe que é incapaz de cometer tal atrocidade e precisa proteger o garoto das garras de seu tio. Em passagens rápidas, antes da cirurgia, temos acesso a um lado velado de Anna, adormecido por seu cinismo. Ela é romântica e sonhadora. É como se Crawford desse vida a duas mulheres distintas, conseguindo esconder uma delas muitíssimo bem. A cada reviravolta, retornamos ao tribunal. Já sabíamos que Barring estava morto, mas desconhecíamos os motivos da acusada. Matar Barring significa exterminar os últimos resquícios ardilosos que Anna tinha dentro de si.
Joan Crawford é uma força da natureza. Sua imposição diante da câmera sempre me fascina e aqui não é diferente. “A Woman’s Face” é um belo e subestimado filme, dirigido por um dos cineastas mais bem sucedidos da Hollywood dourada.




