Êxtase de Amor (1947)
Dirigido pelo mestre Otto Preminger, “Daisy Kenyon” é um dos melodramas mais maduros já feitos. Um filme que foge de algumas tendências hollywoodianas, apresentando personagens com personalidades complexas e oferecendo respostas que dialogam com a vida real.
A protagonista, que dá nome ao título, é apaixonada por Dan, um advogado bem-sucedido que é casado e tem duas filhas. A essa altura, Daisy sabe que nunca o terá para si e está começando a se convencer que precisa seguir em frente. Dan tem um charme sacana que combina com seu narcisismo. Ele sabe como seduzir e convencer Daisy, mas, sempre que estão juntos, está prestes a se despedir, obrigado a retornar às obrigações familiares. O roteiro foge de categorizações simplistas. Em casa, Dan é um pai carinhoso, amado por suas filhas; enquanto Lucille, sua esposa, é mais temperamental, capaz de agredir as crianças em meio a discussões. Daisy tem um outro pretendente: Peter, um militar que ainda sofre pela morte de Suzy, sua esposa. O fato de ele se manter no exército, mesmo após o fim da Guerra, diz muito sobre a sua incapacidade de aderir ao cotidiano simples. Peter gosta de Daisy, embora não minta sobre a necessidade de preencher o vazio deixado por Suzy. Ele sabe que a protagonista tem sentimentos profundos por Dan e é muito justo em relação a isso.
Esse é um filme de decisões civilizadas, baseadas na vontade da mulher, não de pressões, agressões ou chantagens. Perdida e certa de que deve abandonar suas expectativas ou esperanças em relação a Dan, Daisy aceita se casar com Peter. No fundo, ambos sabem que aquela é uma tentativa de se desenvencilhar do passado, de esquecer alguém que foi importante e que não retornará. O grande charme de Peter é justamente a honestidade, acompanhada de uma serenidade inabalável – a não ser quando tem pesadelos. Talvez eles precisem se convencer de que se amam. Talvez o amor, nos moldes idealizados por nós, humanos, não exista. Preminger nos insere naquela dinâmica, reforçando a tranquilidade que os cerca. Eis que Dan, após um baque profissional, volta a procurar Daisy. Antes, quando ele, em primeiro plano, cabisbaixo, diz: “Seja feliz, meu bem. Você merece”, sabíamos que estávamos diante de uma versão diferente daquele sujeito convencido. Por que esse fascínio por Daisy? Trata-se de uma paixão pura? A protagonista o liberta de suas obrigações e revela um lado seu pouco lisonjeiro. Tudo bem, os casamentos acabam, mas o descaso pela guarda das filhas salienta sua infantilidade e dificuldade de assumir compromissos. Dan sai da máscara do narcisismo, declarando-se como nunca para Daisy, cheio de intenções. O espectador pode cair na armadilha, mas as entrelinhas existem para serem lidas. E, Peter, como reage a isso tudo? “Não quero uma esposa por formalidades”. A decisão é de Daisy.
Preminger, em algumas ocasiões, por meio da posição dos personagens, forma um triângulo. As principais marcas de sua encenação são a proximidade dos amantes e a presença das sombras, que engolem o trio numa espiral de dúvidas, incertezas e melancolias. Preminger, tendo noção dos atores que tinha em mãos, explora ao máximo suas expressões faciais – ali, estão as nuances do filme. Eu gosto como os figurinos cumprem a função de diferenciar Peter e Dan em estilo e personalidade. A gravata borboleta dá um ar mais inocente e sereno ao militar; já a gravata e o lenço no paletó pintam a imagem do conquistador clássico para Dan – sutilezas assim engrandecem a narrativa. E Daisy? Eu falei tanto sobre os personagens masculinos e me debrucei pouco sobre o elemento central do triângulo. Seu arco gira em torno da independência emocional, da capacidade de entender o mundo em seus contornos mais reais. Ela sofre bastante, mas com um propósito bem estabelecido. O desfecho é a maior prova dessa maturidade. Não há uma catarse emocional, apenas o encerramento do triângulo. Nem dá para dizer que se trata de um final feliz. É um final honesto, que não cria grandes expectativas.
Joan Crawford é uma especialista em interpretar personagens emocionalmente complexas, que expõem suas dores através de seu rosto. Dana Andrews cria uma casca de charme e suavidade, mas não deixa de explorar o lado mais vulnerável de Dan, um homem que não se conhece por inteiro. Henry Fonda, com seu carisma inigualável, é quem compõe o personagem mais intrigante, preso entre a racionalidade, a melancolia, o cavalheirismo e o amor.
“Daisy Kenyon” é uma pérola que vem sendo redescoberta por uma geração de críticos e cinéfilos que entendem o seu brilhantismo.




