De corista de teatro itinerante a primeira mulher no conselho da Pepsi, ela atravessou o mudo, o Oscar e o descarte escolhendo papel, produtor e elenco numa Hollywood que não deixava a atriz escolher nada.
Joan Crawford é uma das maiores atrizes da era de ouro de Hollywood, e uma das mais mal contadas. Mais de oitenta filmes em quarenta e cinco anos, um Oscar de Melhor Atriz e três indicações. No meio do caminho, os donos de cinema dos Estados Unidos publicaram o nome dela numa lista de gente que dava prejuízo. Ela respondeu assumindo o controle de tudo que uma atriz podia controlar naquela época, que era quase nada.
Quem foi Joan Crawford?
Joan Crawford nasceu Lucille Fay LeSueur em 23 de março de 1904, em San Antonio, no Texas, e morreu em Nova York em 10 de maio de 1977. Entre uma coisa e outra fez a carreira mais longa da sua geração: entrou no cinema mudo em 1925 e ainda estava trabalhando nos anos 1970.
Seu nome não foi escolhido por ela. A MGM contratou uma dançarina desconhecida e botou o público pra batizar a estrela nova, num concurso da revista Movie Weekly. Ela detestou o resultado. Dizia que “Crawford” soava como crawfish, lagostim.
Da corista à estrela da MGM
A carreira dela começou dançando, não atuando. Rodou o país em companhias itinerantes como corista antes de chegar à Broadway em 1924, e foi de lá que saiu o teste de tela que a MGM aceitou: setenta e cinco dólares por semana.
Our Dancing Daughters (1928) fez dela uma estrela nacional na pele da melindrosa moderna, a garota que dança até o sol nascer. F. Scott Fitzgerald, que praticamente inventou o tipo na literatura, escreveu que Crawford era o melhor exemplo que existia.
A chegada do som eliminou meia Hollywood, e não foi sorte que ela tenha sobrevivido. Tinha sotaque do sudoeste americano e se trancou lendo jornal, revista e livro em voz alta até o sotaque sumir. Em 1932 já dividia a tela com Greta Garbo em Grande Hotel.
A lista que quase encerrou a carreira dela
Em 3 de maio de 1938, o Hollywood Reporter publicou um anúncio pago assinado por Harry Brandt, presidente da associação de exibidores independentes dos Estados Unidos. O texto listava astros que, segundo os donos de sala, davam prejuízo de bilheteria. Ficou conhecido como a lista do “veneno de bilheteria”. Estavam nela Greta Garbo, Katharine Hepburn, Marlene Dietrich e Crawford.
Ela tinha mais de trinta filmes nas costas e trinta e quatro anos. Era uma sentença pública de descarte.
A resposta dela foi trabalhar. Em Um Rosto de Mulher (1941), de George Cukor, brigou pelo papel de uma chantagista com metade do rosto desfigurada por queimadura, o oposto de tudo que a MGM vendia nela. Em junho de 1943, depois de dezoito anos, deixou a MGM e assinou com a Warner.
O Oscar e os anos na Warner
O Oscar de Melhor Atriz veio por Alma em Suplício (1945), e quase não veio. Barbara Stanwyck recusou o papel antes. Michael Curtiz, o diretor, não queria Crawford e só cedeu depois de ver um teste de tela. Uma atriz com vinte anos de carreira fazendo teste como iniciante.
Os cinco anos seguintes são o melhor bloco da filmografia dela, e é de lá que sai boa parte da playlist desta semana: Acordes do Coração (1946), Fogueira de Paixão (1947), que rendeu a segunda indicação ao Oscar, Êxtase de Amor (1947), de Otto Preminger, e Os Desgraçados Não Choram (1950).
A terceira e última indicação veio com Precipícios d’Alma (1952). A concorrente direta dela em Melhor Atriz naquele ano era Bette Davis. Nenhuma das duas levou.
Estilo e legado
O trabalho de Joan Crawford é um trabalho de rosto. Ela entendeu antes de quase todo mundo que o cinema sonoro tinha herdado do mudo uma arma que o teatro não tinha: a câmera perto o suficiente pra ler o que a pessoa não diz. O que parecia exagero na época era controle. Cada movimento estava calculado pra uma distância de câmera específica.
E o controle não parava na atuação. Numa indústria em que o estúdio decidia o que a atriz ia fazer, com quem e quando, ela passou a montar os próprios projetos. Folhas Mortas (1956) foi o primeiro encontro dela com Robert Aldrich, seis anos antes de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, filme que recuperou o custo de produção em onze dias e devolveu Crawford ao centro de Hollywood aos cinquenta e oito anos.
Fora do set era a mesma coisa. Casou com Alfred Steele, presidente da Pepsi-Cola, e quando ele morreu em 1959 ela foi eleita a primeira mulher no conselho da empresa. Ficou lá até 1973.
Uma última nota que diz muito: em 1969, no piloto de Night Gallery, Joan Crawford foi a primeira atriz profissional que Steven Spielberg dirigiu na vida. Ela tinha quarenta e cinco anos de carreira. Ele não tinha nenhum filme.
Joan Crawford tratava a própria imagem como decisão de direção e a própria carreira como projeto. Numa era em que atriz era propriedade de estúdio, ela se comportou como autora.




