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Na década de 70, nenhuma criança interpretou melhor a perda da inocência infantil do que Ana Torrent, que protagonizou duas das maiores obras primas do cinema espanhol: “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice, e “Cría Cuervos”, de Carlos Saura. Eu não sei que tipo de impacto essas performances tiveram em sua vida e em seu amadurecimento; o fato é que Torrent atingiu um nível de complexidade muito raro na sétima arte. 

Em “Cría Cuervos”, assim como em “O Espírito da Colmeia”, ela vive uma personagem xará sua. Aos nove anos, Ana perdeu, num curto espaço de tempo, Maria, sua mãe, vítima de uma terrível doença, e Anselmo, seu pai, que faleceu na cama, ao lado da amante. O filme se passa no período em que a Espanha era governada pelo ditador Francisco Franco, o que acentua o clima de melancolia. “Lembro-me da minha infância como um longo período, interminável e triste, onde o medo cobria tudo”, diz Ana, já adulta. A morte, para as crianças, é algo incompreensível, que afeta apenas pessoas distantes. Os pais são super-heróis terrestres, seres intocáveis que estão aqui para abraçar e proteger. Ver a mãe agonizando, admitindo ter medo de partir, é um horror que não deveria compor a experiência infantil. Pior: o que fazer quando se percebe que o pai não é o tal super-herói, mas um militar fardado que demonstra descaso perante a esposa e que fere o conceito de lealdade? No velório de Anselmo, Ana opta por não se despedir. Ela não expressa seus sentimentos abertamente, mas sabemos o que passa por aquela confusa cabeça. A casa é uma fortaleza que esconde a protagonista e suas irmãs do mundo real. A fortaleza abriga traumas, é um lar moribundo. A fantasia foi subvertida pela morte, que, neste contexto, tornou-se algo banal. 

Ana não consegue dormir, fecha os olhos com considerável esforço, mas não consegue se esquecer daquilo que viu. Em determinado momento, Saura a coloca em primeiro plano, entre os pais, que discutem a enfermidade de Maria. Invisível, ela fica no centro do caos, observando o esfacelamento do sonho. A morte passa a fazer parte de suas brincadeiras. Perto da avó, que não consegue mais falar e contempla fotos de um passado alegre, ela não titubeia: “Você quer morrer? Quer que eu te ajude a morrer?”. Uma arma de fogo é um brinquedo, não um símbolo ameaçador. Se a tia, uma mulher infeliz, encarregada de cuidar das crianças, passar do ponto na rigidez, que mal tem de pôr um pouco de veneno em seu leite? A infância é o período da imaginação fértil e da formação da pureza. Quando a morte vira um mantra, a criança se perdeu, desconstruindo o arquétipo a partir da ideia de que nada é intocável e doce. O mundo passa a ser um lugar de dor, luto e perdas. A experiência humana tropeça, é acelerada em desproporção, causando feridas visíveis na Ana adulta, uma figura solitária e doída que fala sobre a vida como uma maldição que lhe foi acometida. Em um curto travelling, Saura vai da criança à versão mais velha, ressaltando que pouco mudou – uma narrativa que brinca com a linearidade. O figurino da protagonista traz consigo a dualidade da cor vermelha: amor e morte dialogam, culminando no sangue que suja suas pequenas mãos. 

No fim de semana no campo, único momento em que saem da sufocante casa, temos um vislumbre de liberdade, de algo que talvez pudesse amenizar a escuridão cotidiana. Ali, as irmãs correm por espaços abertos. Além das tragédias familiares, Ana foi vítima de um período político que, de certa forma, assemelha-se à sua casa. Nas ruas de Madri, a morte também se tornou algo banal. A confiança que Saura deposita em seu elenco infantil é formidável. Sua câmera acompanha Torrent em diferentes distâncias. Seu rosto, expressivo como poucos, indica uma série de emoções sem precisar de alterações bruscas. A música a faz relaxar e as irmãs são suas amigas, mas a solidão a persegue. Parece que Torrent está, juntamente com Ana, aprendendo o que é a melancolia num estágio avançado. Sua tristeza ainda é inocente, porém pujante. Seus atos “maliciosos” não diferem dos demais; afinal, ela ainda está na fase de aprender a diferenciar certo e errado. É tudo muito sutil, delicado e arrebatador, o que é traduzido pela exuberante trilha sonora que abre a narrativa. Geraldine Chaplin, que interpreta Maria e a versão adulta de Ana, oferece performances que combinam fragilidade, contenção e vazio emocional. 

“Cría Cuervos” é um dos grandes estudos já realizados sobre a infância. Não à toa, o filme venceu o Grande Prêmio (equivalente ao 2º lugar) no Festival de Cannes, em 1976.

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