“This Is England”, a obra prima de Shane Meadows, assemelha-se ao trabalho da banda The Jam. É belo, cool, crítico à sua pátria e dotado de uma energia raivosa. Shaun, um garoto de 12 anos, sofre bullying na escola e ainda lamenta a perda do pai, morto na Guerra das Malvinas. Eis que, um dia, voltando para casa, Shaun se depara com um grupo de jovens. Eles são simpáticos e gentis, acolhendo o protagonista. Todos ali, sem exceção, desejam a mesma coisa: sentir-se pertencente, sem bandeiras políticas, apenas a oportunidade de rir e farrear ao lado de bons amigos.
À parte da sociedade, num gesto rebelde que compõe a cultura britânica, o grupo adota uma identidade visual, com jeans, botas, cabelo raspado, camisa de botão e suspensório. Em determinado momento, a mãe de Shaun, revoltada com o novo corte de cabelo do filho, queixa-se com seus novos amigos. Em vez da animosidade juvenil, em que a mãe seria criticada e, possivelmente, xingada, vemos uma conversa civilizada, na qual o grupo se desculpa por não tê-la consultado antes. É uma cena que pode passar despercebida, mas que capta o espírito daqueles jovens. O que eles fazem? Perambulam por aí, destroem propriedades desocupadas, jogam futebol… bem, o importante é estar junto. Meadows e seu montador traduzem perfeitamente a nova fase de Shaun, apresentando fragmentos da farra, como num videoclipe, por vezes, em câmera lenta. Outro elemento fundamental é a trilha sonora reggae, que ressalta a inclusão racial e cultural promovida pelo grupo. Shaun também desperta sexualmente e descobre o amor em Smell, que remete a Siouxsie Sioux, da banda Siouxsie and the Banshees. Meadows não abre concessões para seu estilo naturalista: tudo é mostrado da forma mais honesta possível; ele nunca esconde os tons frios que dominam aquela Inglaterra, visivelmente intoxicada por ideais pouco agregadoras.
A primeira metade do filme é uma delícia; no entanto, Combo, que passou três anos na prisão, retorna e subverte a narrativa. Os olhares de Lol e Woody, namorados e líderes do grupo, falam por si: Combo chegou para tumultuar o ambiente, trazendo caos e ódio a um conjunto que só quer se divertir sem levantar bandeiras. Vivido por Stephen Graham, Combo é um nacionalista extremo, do tipo que crê que em lemas como “Inglaterra para os ingleses”. Seus discursos inflamados se confundem com seu carisma e retórica convidativa; todavia, ele não passa de um fascista estúpido. Ao perguntar para Milk se ele se considera jamaicano ou inglês, Combo quer saber se pode abraçá-lo ou se será obrigado a agredi-lo. Ele é intimidador e desperta medo, mas esconde alguma bondade no fundo da alma. A cisão de grupos é declarada e Shaun, ao escutar sobre manter a honra do pai, é convencido por Combo. Ambos os lados são semelhantes em sua origem: a busca por pertencimento e conexão. A diferença está no tipo de energia que é depositada. Enquanto Woody e Lol buscam a harmonia em meio à desesperança, Combo usa o ódio como combustível para reunir jovens imaturos. Shaun não sabe no que se meteu, mas é bom fazer parte de algo tão definido. A nação, não o indivíduo; fascínio, não carinho. “Você acredita mesmo nessas merdas?”, pergunta, inocentemente, um dos garotos a Combo, levando-o à loucura.
Este é um momento chave justamente por trazer à tona a verdade sobre o personagem. Diferentemente dos adultos que lideram as conferências nacionalistas, que, de fato, acreditam na supremacia inglesa, Combo é um ser ressentido, inseguro e frustrado que encontrou no ódio uma forma de se mostrar “poderoso”. O poder traz uma falsa sensação de imponência, escondendo as reais nuances daquele que é digno de pena. Não há nada mais perigoso do que um sujeito inseguro guiado pelo ódio; não existe racionalidade genuína, apenas um desejo por medidas destrutivas. Shaun, sem captar a verdade por trás do novo líder, é conquistado pela falsa imponência, o que é salientado em um belo contra-plongée – o mesmo vale para a sobreposição de imagens entre a gangue e a bandeira inglesa. Quando Combo deixa a persona skinhead de lado e dá lugar ao humano que existe dentro de si, vemos um homem inseguro, com medo da rejeição. Ele se declara para Lol, com quem teve uma noite “especial” antes de ser preso. A hesitação do personagem é reforçada por um corte que fecha ainda mais o quadro. Combo é atropelado pela verdade. Graham oferece uma performance fantástica, combinando carisma, hostilidade e vulnerabilidade. Sua expressão, após ser rejeitado por Lol, é puro ressentimento, dor e ódio – ali, está a razão pela qual ele abraçou o movimento. É uma desculpa para transformar seus sentimentos em atos brutais e incontornáveis.
No clímax, a montagem é responsável por elevar a tensão, elaborando um embate entre o pobre Milk, Combo e Shaun, que observa a situação sem entender a motivação de seu líder. Graham encarna um raro nível de animosidade e faz de Combo uma figura ainda mais imprevisível e irracional, que age por sua conturbada tempestade emocional, alimentada pelo fascismo. A trilha sonora, depois que o protagonista transita de grupo, torna-se melancólica e soturna, guiando seu arco de autoconhecimento. Shaun precisa aprender a distinguir a essência boa e a ruim; precisa se valorizar em detrimento de uma bandeira. Honre o legado de seu pai sendo o homem que ele gostaria que você fosse. A solidão pode nos levar a caminhos escuros. Pessoas como Woody estão aí para provar que, mesmo naquela Inglaterra decadente e fria, há esperança. Em suas reuniões, os planos fechados revelavam intimismo e alegria; nas de Combo, incerteza.
“This Is England” é um filme extraordinário e dicotômico; seja livre e feliz ou alimente o ódio. Não à toa, Shane Meadows manteve o projeto com uma série.



