Steven Soderbergh é um diretor tão prolífico, que vários de seus filmes, que deveriam ter um alto reconhecimento, são pouco conhecidos. “The Limey”, lançado em 1999, é a prova de que ele é capaz de elevar premissas simples com suas escolhas estéticas.
Wilson acabou de sair da prisão e já tem um plano definido: encontrar o responsável pela morte de Jenny, sua filha. O protagonista é um sujeito determinado, de poucas palavras; seus passos são para frente, nunca para trás. O trabalho de montagem é fascinante. Soderbergh gosta de fragmentar suas narrativas, negando a linearidade e, aqui, a partir de flashforwards e flashbacks, temos a fomentação de um senso crescente de urgência, a possibilidade de adentrar a mente obsessiva de Wilson e uma breve contextualização de seu passado. Na primeira sequência de ação, Wilson percorre uma rua escaldante e adentra um ambiente de tom esverdeado, lotado de criminosos – a fotografia acerta ao estabelecer um clima de animosidade, perfeito para que o protagonista apresente suas credenciais. Soderbergh fecha o quadro em Wilson, que, mesmo em desvantagem e enxotado, retorna – dessa vez, a câmera não o acompanha e tudo que ouvimos são disparos, o que ajuda a alimentar sua aura cool.
Wilson tem a ajuda de Eduardo, amigo de Jenny, que lhe dá as diretrizes do caso. Eles vão atrás de Terry Valentine, um famoso produtor musical que mantinha um relacionamento com Jenny. O roteiro o caracteriza como um grande covarde, um ser cuja abundância de poder é proporcional ao seu medo. Valentine tenta preservar uma jovialidade inexistente. Ele sai com mulheres jovens, dirige carros luxuosos e cuida da aparência com uma minúcia notável. Avery, seu braço direito, zela por sua segurança e toma a dianteira para frear o plano de Wilson. Soderbergh, respeitando as nuances daquele universo, aposta numa violência realista e, embora trabalhe com uma montagem “ativa”, evita que a narrativa se torne digressiva – seguimos no ritmo impiedoso do protagonista. Ainda assim, há toques bastante sofisticados de humor, como, por exemplo, na sequência em que Wilson espanca um capanga e o arremessa de um penhasco em segundo plano. Isso sem falar na presença magnética de Terence Stamp, cujo jeitão inglês contrasta com os demais personagens.
Wilson, além de um ex detento, é um homem solitário que, pela última vez (e, talvez, pela primeira), tenta cumprir seu papel paterno. No passado, ele tinha amigos e uma mulher; os anos passaram, alguns na prisão, e a modernidade parece não ter lhe caído bem. Como “anti-herói”, Wilson é formidável; no entanto, fora de tal definição, ele é apenas um cara vazio e perdido. Jenny o chamava de “fantasma” e tinha asco de suas pretensões criminosas. Ela costumava pegar o telefone e fingir que ia ligar para a polícia. Wilson levava tudo na brincadeira e, agora, age com a seriedade que lhe faltava. No clímax, medo e ganância se chocam, numa prova de que a estupidez humana não tem limites. O azul toma conta da tela, reforçando a ideia de uma ação silenciosa, na qual Wilson desmonta um exército de trapalhões. É, então, que a carpintaria de Soderbergh se mostra ainda mais incrível. Ele evita o desfecho simples, buscando algo mais complexo e duro. Wilson precisa descansar.
Terence Stamp é o grande destaque. Sua sagacidade humorística só não é maior que a força que tem para expor o vazio através do olhar. Peter Fonda, que interpreta Valentine, também está excelente. Ele traz à tona a insegurança que domina o produtor, tornando-o consideravelmente mais patético. “The Limey” é um filmaço de alta voltagem e baixa notoriedade.



