Eu estou começando a suspeitar da sanidade de Takashi Miike, que, aos 65 anos, dirigiu mais de 100 filmes. “Dead or Alive” é um dos grandes exemplos do peculiar funcionamento de sua mente. A sequência de abertura é o delírio de um artista que subverte as convenções, imergindo o espectador numa avalanche de estímulos.
A contagem regressiva para o início é o toque de um cineasta que assume um tom farsesco. Miike combina elementos estéticos de vídeo games e clipes musicais; a música enérgica, as cores fortes, as drogas, o mundo criminoso e o frenesi da montagem formam um mosaico de aura cool – e, sendo sincero, o filme é mais sobre estilo e sensações do que qualquer outra coisa.
Na trama, Jojima, um policial, investiga uma pequena gangue, responsável por atrapalhar os planos da Yakuza. Após a abertura, Miike diminui o ritmo, investindo tempo na caracterização dos personagens. Jojima é um policial competente, mas um homem infeliz. Seu casamento não anda bem, o que é ressaltado pelo fato dele dormir no sofá, e sua filha precisa realizar uma operação altamente custosa. Jojima vive para o trabalho; sem os óculos escuros, as investigações e as armas, ele é apenas um cara perdido. Miike brinca com as normas dos filmes de ação, caracterizando seus personagens de forma exagerada, quase caricata. Ryuuichi, líder da gangue, personifica seu ofício. O mullet, os óculos escuros e o sobretudo são marcas de um sujeito que, embora tenha uma voz imponente, age em silêncio. Em determinado momento, alguém diz que é preciso haver um equilíbrio entre o crime e a lei. De certa forma, Miike introduz tal ideia à narrativa, entendendo que a pacatez e as incertezas do policial servem de contraponto à harmonia divertida da gangue de amigos, sintetizada na boate em que o vermelho e o roxo prevalecem.
O diretor frustra aqueles que esperam por uma enxurrada de sequências de luta; sua intenção é fazer o melhor filme de (anti) ação possível. Em alguns momentos, pouco acontece e a impressão é de que Miike está experimentando ou preparando o terreno para algo maior. Os toques de humor estão na autoconsciência que a obra tem sobre o que deseja ser. Há um grupo que trabalha com um tipo bizarro de pornografia; e a Yakuza, quando quer torturar um inimigo, o afoga numa piscina de fezes. A cena de maior impacto sanguinolento, antes do clímax, pode ser descrita como a guerra da ganância, na qual membros da Yakuza são dizimados pela tal gangue. Nos projetos de Miike, o sangue é tão vermelho quanto pode ser – seus universos são verdadeiras panelas de pressão. As ruas são dominadas por um calor palpável. A temperatura aumenta, indicando que estamos prestes a presenciar o caos. Nos ambientes internos, o cineasta, juntamente com seu diretor de fotografia, estabelece focos de luz potentes (frestas cuidadosas ou luminárias), conferindo um efeito agressivo à imagem.
Jojima, a fim de se provar valoroso para a esposa, insiste em pagar a operação da filha; todavia, com o passar do tempo, ele percebe que não será possível, então pede um favor ao chefe da Yakuza. Esse é um ponto importante, pois é o elo que une Jojima a Ryuuichi, que acabou de reencontrar o irmão, um jovem de futuro promissor que estava estudando nos Estados Unidos. No desfecho, eles não lutam pela lei ou poder, mas por honra e vingança. Miike é um esteta do exagero. Seu estilo está muito ligado ao gore e à quebra de expectativas e, nos últimos 15 minutos, somos brindados com isso e muito mais. São escolhas sem precedentes e que, do ponto de vista racional, não fazem sentido. É como se Miike quisesse deixar claro: tudo bem, é um filme de ação, mas à minha maneira. Sem maiores spoilers, é o mais próximo que o cinema teve de um duelo entre John Matrix, de “Commando”, e Goku, de “Dragonball”.
“Dead or Alive” é o tipo de entretenimento que não se vê todo dia.



