Em “United 93”, Paul Greengrass narra os acontecimentos do fatídico 11/09/2001, com ênfase para o avião que dá nome ao título, o único que não chegou ao seu alvo, graças à bravura de seus passageiros, que lutaram por suas vidas. Alguns grupos de terroristas da Al Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais, com o intuito de atingir o World Trade Center e o Pentágono. Três das operações foram “bem sucedidas” (duas em Nova Iorque e uma em Washington).
Os primeiros personagens que vemos são os terroristas, o que é fundamental para a construção do tom trágico. Tudo apontava para um dia comum, com pessoas indo ao trabalho e familiares voltando para casa. Greengrass constrói uma dinâmica corriqueira, principalmente no aeroporto. Todavia, por trás da normalidade, sabemos que algo extraordinariamente cruel irá acontecer. Sentimos pena do passageiro que entrou no avião no último instante – mais uns segundos e ele poderia estar vivo até hoje. Assim como em “Bloody Sunday”, Greengrass não foca em personagens, mas na escala do acontecimento. Nesse sentido, a escolha por um elenco de “não-atores” e rostos pouco conhecidos é perfeita, justamente por evitar que o espectador se desconcentre com o que, de fato, importa. Outro acerto do cineasta é optar por uma narrativa que contemple diferentes pontos de vista e que se concentra, mais ou menos, em tempo real, aumentando o grau de tensão.
Acompanhamos várias centrais de controle, incluindo a militar, e chegamos à conclusão de que ninguém estava preparado para uma operação daquela magnitude. Assim que os aviões são sequestrados, notamos, primeiro, um certo ceticismo, quase uma torcida para que aquilo seja um trote; depois, dor e apreensão se confundem com um alto grau de impotência. A situação escala, aos poucos, ao seu verdadeiro nível. Enquanto investigam e recebem as péssimas notícias, os profissionais de controle tentam elaborar algum plano. Os militares acionam os aviões caça, mas como os utilizarão? Atacar os aviões comerciais, mesmo com centenas de civis? Eu não consigo cravar que houve um despreparo geral, mas não há dúvidas de que o sistema americano de segurança era falho. Greengrass é o cineasta ideal para lidar com esse tipo de material. Sua direção foge do espetáculo, escorando-se numa estética documental, que grita por urgência. As centrais de controle, naturalmente apertadas, em suas mãos, transformam-se em espaços ainda mais claustrofóbicos, com os profissionais atendendo a telefonemas e andando em desespero. O uso constante de câmera na mão, a preferência por manter o quadro fechado e os zooms guiam o espectador por um labirinto realista de tensão e caos – os planos-detalhe dos painéis chegam a arder o coração.
A montagem garante que todos os espaços dialoguem entre si, dando maior destaque para o United 93 depois dos primeiros 50 minutos, quando já sabemos que o World Trade Center e o Pentágono foram atingidos. Os terroristas, claramente nervosos, demonstram uma assustadora determinação, contrastando com a paz dos civis, que comem seu café da manhã e aguardam por um pouso seguro. Assim que o sequestro começa, Greengrass agita ainda mais sua câmera. Diferentemente dos demais voos, no United 93, os passageiros ligaram para seus familiares, passando, então, a entender a situação e o plano dos terroristas. Nos últimos dez minutos, Greengrass, captando o espírito de sobrevivência dos civis, chega a um raro nível de crueza e selvageria.
Ao dobrar a aposta de seu excepcional “Bloody Sunday”, o cineasta britânico concebe um dos retratos mais intensos e angustiantes de uma tragédia real.



