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Em 2002, Doug Liman dirigiu “A Identidade Bourne”. Dois anos depois, o bastão foi passado para Paul Greengrass, que fez o que parecia impossível: melhorou o que já era fantástico. Seu estilo frenético e realista redefiniu o rumo da ação na sétima arte. Em “A Supremacia Bourne”, 2004, Jason Bourne, incriminado por um assassinato que não cometeu, consegue provar sua inocência para Pamela Landy, da CIA. O protagonista segue na busca por sua identidade e pelo responsável por tê-lo transformado numa máquina de matar. 

Nos filmes anteriores, a CIA era retratada como uma agência de moral dúbia e extremamente falha. No encerramento da trilogia, a coisa escala para um outro nível. Os agentes da chamada Central de Inteligência são descuidados, impacientes e sanguinolentos. Jason Bourne, com sua capacidade de antever cenários e habilidade para derrotar um batalhão inteiro, os coloca numa situação um tanto constrangedora, expondo falhas estratégicas e a fragilidade de homens egoístas. Bourne sente que, para seguir adiante, focando no presente, precisa expurgar os demônios do passado. A CIA, por sua vez, sabe que Bourne representa o fracasso de uma agência incapaz de controlar um antigo ativo e que, caso os detalhes da operação Treadstone venham à tona, cabeças rolarão. 

Assim como acontece nos predecessores, “O Ultimato Bourne” está sempre em movimento, situando-se em países de diferentes características urbanas. Londres é o palco ideal para uma cena numa estação de trem. A geografia labiríntica e apertada de Tânger é perfeita para uma perseguição envolvendo moto, carro e corrida a pé. Nova Iorque tem o peso de um clímax, além de ser uma metrópole que comporta o tamanho das ambições de Greengrass. Não se trata somente do tecnicismo de um cineasta autoral; a escolha das cidades garante uma variedade de texturas e de ação. 

As sequências de luta soam improvisadas, com os personagens utilizando aquilo que têm à disposição para derrubar o oponente. Os embates corpo a corpo são especialmente brutais – a impressão é de que estamos assistindo a homens lutando pela própria vida, não a uma coreografia. Os golpes desferidos, as lesões e o sangue são palpáveis, o que difere a franquia Bourne da maioria do mesmo gênero. Os cortes frenéticos dialogam com o uso ostensivo de câmera na mão, conferindo uma atmosfera crua e realista à narrativa. A linha entre a intensidade e a incoerência visual é tênue, e Greengrass se mantém firme, imprimindo um caos fascinante de se acompanhar. Considerando as preferências estéticas do cineasta, a montagem paralela prova ser um artifício imprescindível, capaz de elevar a tensão e a sensação de perigo. Bourne é um personagem atormentado, quase maldito, o que é ressaltado pelos flashes que sua mente dispara como assombros distorcidos. O mesmo vale para predileção da fotografia por tons frios, salientando a aura melancólica e conturbada do protagonista. 

O roteiro acerta ao dar uma importância maior a Nicky Parsons, interpretada por Julia Stiles, que, antes, ensaiava algo do tipo, mas ainda tinha suas garras muito presas à agência. É fácil torcer por Jason Bourne. Filmes desse tipo precisam de um protagonista inteligente, complexo e carismático. Matt Damon encapsula tais atributos com a destreza de um ator que conhece seu personagem de cor. Do elenco de apoio, David Strathairn é o principal destaque, dando vida ao lado mais sujo e descontrolado da CIA. “O Ultimato Bourne” é uma obra prima da ação.

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