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Em 1972, em Derry, na Irlanda do Norte, uma passeata em prol dos direitos civis foi fuzilada pelo exército britânico, resultando em dezenas de feridos e 13 mortos. Os católicos/nacionalistas se manifestavam por moradia e emprego, exigindo as mesmas oportunidades destinadas aos protestantes/unionistas. O massacre decretou o fim dos movimentos pacifistas, inflamando o IRA, que passou a recrutar mais jovens e a ser cada vez mais violento em suas ações. Em “Bloody Sunday”, Paul Greengrass, com seu estilo cru e visceral, narra os acontecimentos do fatídico dia.

Sob a direção de outro cineasta, este, provavelmente, seria um filme espetaculoso, que não faria jus à tragédia. Greengrass traz uma urgência documental à narrativa. Ao movimentar a câmera na mão e manter o quadro fechado, ele também fomenta uma atmosfera claustrofóbica, potencializada pelas estreitas ruas de Derry. Por vezes, a câmera é posicionada de maneira que vejamos a fresta da porta, o que salienta o sigilo das conversas – não é algo que deveríamos observar. Os tons acinzentados, que dominam a cidade, somados ao arame farpado e à força armada, instauram um tom sombrio, quase como um prenúncio do que iria acontecer. Greengrass está interessado em retratar o acontecimento, evitando que nos apeguemos a personagens específicos. Sua estrutura é muito bem definida. 

No “pré”, acompanhamos Ivan Cooper, parlamentar que defende os interesses nacionalistas, organizando a passeata, preocupado com a ação do exército, articulando uma mudança de rota e defendendo seu idealismo político. Cooper é o único católico de terno e gravata; o único que pode usar microfones para expressar seu descontentamento. Os jovens, tratados como criminosos, lutam por uma causa, não por individualidade. A montagem alterna os pontos de vista, colocando-nos em contato com o lado militar. A impressão, desde o início, é de que os oficiais, tanto os de alta patente quanto os paraquedistas, estavam atrás de uma desculpa para iniciar uma chacina. Os líderes falam em ensinar uma lição e em usar força máxima. Sabemos que alguns têm noção da tragédia; todavia, estes não têm o poder para impedir ou repreender as ações. Greengrass vai na minúcia dos preparativos, reforçando sua proposta documental. A câmera fica próxima das pessoas, adentrando os espaços como se nos inserisse no caos. 

Quando o massacre começa, Greengrass intensifica os cortes e os movimentos atordoantes, mantendo o que já havia estabelecido. O grau de realismo da brutalidade chega a assustar, principalmente por ela surgir do nada, sem qualquer critério. Sim, há uma revolta por parte dos manifestantes, que arremessam pedras; no entanto, nada justifica o extremismo e o abandono do planejamento. Em determinado momento, a montagem relaciona o discurso pacifista de Cooper com a brutalidade dos oficiais, ilustrando a ideia da passeata e o que ela se transformou. O “pós” reforça o caráter criminoso do exército britânico, que, em vez de admitir erros, mostra-se orgulhoso e dissimulado. Do outro lado, as confirmações de mortes levam a lágrimas e a uma comoção que foge do melodrama. Os militares só inspiraram mais ódio e revolta, nada além disso. Até mesmo Cooper, que era o ponto de equilíbrio dos nacionalistas, demonstra um abatimento emocional fortíssimo. As cartelas finais são um tapa na cara da sociedade – esses oficiais foram condecorados, não punidos. 

O mais fascinante é que este corajoso trabalho de Greengrass, ainda longe de Hollywood, o colocou nos holofotes. Dois anos depois, ele assumiu a franquia Jason Bourne, responsável por uma pequena revolução no gênero de ação. “Bloody Sunday”, o filme em que a tragédia é realmente trágica, também garantiu a Greengrass o Urso de Ouro, numa edição acirrada do Festival de Berlim.

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