“Remember My Name” tem, em sua feitura, as digitais da Nova Hollywood. Discípulo de Robert Altman, que produziu o filme, Alan Rudolph pega uma história conhecida e a narra com a destreza de um autor que confia no próprio taco.
Emily parece estar recomeçando sua vida. Os óculos escuros marcam o mistério que a ronda. Em suas interações, ela combina rispidez e gentileza, dando indícios de psicose ou algo do tipo. Em determinados momentos, Emily demonstra uma vulnerabilidade imensa; em outros, soa perigosa. A protagonista passa os dias perseguindo e aterrorizando Neil e sua esposa, provando ter um plano em mente. Mas, quem é Neil? O que Emily quer com ele? Por que, de alguma forma, sabemos que Neil suspeita da identidade de seu stalker? Rudolph enche o espectador de perguntas, fomentando uma atmosfera inquietante, cool e calcada no realismo. Aqui, não há coelhos em panela; no máximo, um jardim destruído. Emily, mesmo com traços acentuados, não se assemelha a uma vilã clássica ou uma a psicopata; somos levados a crer que estamos diante de uma mulher solitária e frágil em busca de justiça.
Emily, por vezes, fala sozinha, como se estivesse ensaiando para o retorno à sociedade. Pike, seu vizinho e policial, é quem nos direciona ao lado mais choroso e sensível da protagonista. Nas ruas, ela parece determinada; em casa, as incertezas batem à porta e é Pike quem está lá para ampará-la. Rudolph, se quisesse, poderia ter feito um thriller de alta intensidade; todavia, sua ideia vai além de arquétipos e do suspense. As sequências de maior tensão são construídas a partir de uma movimentação de câmera bem suave. É tudo muito bem articulado pelo elenco e por Rudolph, que usa zooms para nos aproximar das expressões dos personagens. A encenação chega ao seu primor em um enquadramento no qual vemos Emily e Neil próximos, porém distantes, separados por barreiras físicas – a complexidade daquela relação está ali. Emily é uma protagonista que faz jus à sua época (o filme é de 1978).
No decorrer da trama, descobrimos que ela passou um tempo presa e que Neil foi seu marido. As informações param por aí, mas podemos suspeitar que ele tenha algo a ver com sua prisão ou que ela esteja querendo recuperar o marido. A verdade é que, no fim, fica evidente que Emily é uma mulher forte, que antecipa cenários e que não mede esforços para restabelecer as rotas da verdade. A “loucura” é, na verdade, um sintoma de lucidez. A trilha sonora jazzística é perfeita ao salientar que o filme é uma balada vingativa. O mesmo vale para a construção do cotidiano, destacado pela pacatez dos empregos de cada um e da “vida americana”.
Geraldine Chaplin oferece uma performance hipnotizante, cativando o espectador com sua estranheza. Os olhos arregalados se confundem com a necessidade de abraçar alguém. Emily precisa de ajuda ou está muito bem sozinha? Chaplin compõe um enigma que, aos poucos, ganha contornos mais palpáveis. Neil é interpretado pelo lendário Anthony Perkins, que, pelo simples fato de estar sempre atormentado, confere peso à narrativa. “Remember My Name” é uma jóia de um cineasta que merece ser redescoberto.



