Os filmes de Alan Rudolph são intrigantes. Eu não sei exatamente como me sinto após assisti-los – e essa parece ser a sua intenção. “Choose Me” é tido como um filme romântico, que divide semelhanças com “One From The Heart”. Os encontros fortuitos, as luzes em neon e as canções são elementos estéticos que permeiam ambas as obras; todavia, enquanto Coppola abraça a clássica história de amor, com um casal que se desconecta por algumas horas para perceber que precisam estar juntos, Rudolph está mais interessado no desejo sexual.
Nancy trabalha na rádio, onde é conhecida como Dra. Love e atende a telefonemas de pessoas com questões amorosas. Nancy adota uma entonação professoral, trazendo afago a ouvintes que anseiam por respostas “divinas”. Diante de depoimentos íntimos e sofridos, ela mantém a frieza de uma expert, provando, aos poucos, ser, na verdade, uma mulher sem qualquer tipo de experiência, que se sente confortável numa redoma em que não precisa lidar com rostos humanos. A voz da sabedoria é a voz da impotência. Nancy liga para o terapeuta quando sente a necessidade, deixando claro que não vai a consultas presenciais. A serenidade que transmite é um sintoma da apatia por nunca ter amado ninguém. Durante uma conversa, o cineasta, assim que ela começa a falar sobre o sofrimento por viver ajudando os outros e não a si, fecha o quadro e opta por panorâmicas, criando um circuito de verdade intensas. Quando Nancy volta ao estado habitual, Rudolph abre o quadro, tirando-a de uma espécie de transe momentâneo.
Eve, dona de um bar de mesmo nome, é um ímã de cafajestes. Ela admite ter dificuldades para rejeitar homens conquistadores, afirmando que o prazer sexual é a droga que a impede de ser feliz. No tempo livre, Eve gosta de ligar para Dra. Love, divagando sobre suas conturbadas relações com Ace, colega de trabalho, e Zack, um bandido comprometido. Precisando de alguém para dividir o apartamento, ela encontra a sorte em Nancy. As duas não fazem ideia de quem são, o que se torna interessante, principalmente, por percebermos que os diálogos mais íntimos são anônimos – o ser humano confia mais no estranho do que naquele com quem convive. O roteiro é hábil o bastante para estabelecer uma série de encontros fortuitos, brincando com as imprevisibilidades do destino e dando chance para os personagens saírem da escuridão.
Mickey, que fecha o triângulo, é misterioso e volátil. Sabemos que não devemos confiar nele, mas seu poder de convencimento é impressionante. Ele esteve em todos os cantos do mundo, já se casou duas vezes e é dono de habilidades manuais raras. Mickey começa o filme internado num hospital psiquiátrico, onde estava por mentir compulsivamente. Sua ficha inclui o exército, espionagem, apostas e fotografia. O que é verdade? Poucas vezes vi um personagem soar tão honesto em suas farsas. Como alguém pode dizer a mesma coisa para duas mulheres diferentes sem que possamos cravar se uma das declarações é genuína? Mickey talvez precise de uma parceira para ajustar seus pensamentos compulsivos; talvez suas palavras sejam verdadeiras. A única certeza é que sua atração por Eve e Nancy é sexual. É graças ao sexo que Nancy passa a expressar vivacidade e dúvida em seu programa. É graças ao ímpeto de dar uma chance ao desejo que Eve e Mickey ficam juntos. Não é o amor clássico, como o de “One From The Heart”, que move essas pessoas – não existe tal coisa no universo concebido por Rudolph.
As luzes em neon, que dão vida às ruas escuras, e a escolha pelo jazz e pelo r & b conferem um aspecto decadente e luxurioso à narrativa. As canções são um convite a uma dança de incertezas. Rudolph, aprendiz de Robert Altman, é preciso ao fomentar um mosaico de desilusões amorosas, guiado por um ótimo trabalho de montagem. O bar, local no qual os personagens se encontram, hipnotiza pelas cores – destaque para o verde e para o vermelho – e reforça a homenagem de Rudolph ao cinema clássico, que fica ainda mais nítida ao vermos vários pôsteres de filmes hollywoodianos na casa de uma coadjuvante. Mas, como sempre, Rudolph molda o clássico ao seu estilo.
Geneviève Bujold consegue tirar Nancy de sintonia, expondo seu vazio enquanto mantém uma tranquilidade enervante. A atriz compõe uma figura que parece nunca ter experienciado nada relevante. Keith Carradine deve muito à dupla Altman e Rudolph. Ambos os cineastas sabem extrair o melhor dele e, aqui, Carradine oferece, muito provavelmente, a melhor performance de sua carreira. “Choose Me” é um espetáculo estiloso e complexo.



