Alan Rudolph tem uma capacidade especial para trabalhar com materiais “manjados”, dando-lhes uma roupagem particular. “Mortal Thoughts” combina suspense, assassinato e reviravoltas, mas foge do lugar comum, colocando-se como um estudo de personagens diante de uma situação extrema.
Cynthia está sendo interrogada pela polícia. Joyce, sua melhor amiga, foi acusada de ter matado James, seu marido. A narrativa, ágil, se concentra num vai e vem, o que permite que o espectador conheça o cenário por completo e que reavalie certas convicções. O ponto de vista de Cynthia é confiável? Rudolph, a partir de planos-detalhe da câmera, do microfone e da tela, ressalta que estamos presos à perspectiva da protagonista e que as indagações do policial são pertinentes. Mais do que isso: o cineasta estabelece uma atmosfera claustrofóbica, potencializada pelos tons frios que dominam a sala e pela forma que movimenta a câmera, rondando a mesa como se nos guiasse por diferentes verdades. James é um homem abusivo, que agride a esposa e tenta se aproveitar sexualmente de Cynthia. A polícia, por sua vez, é conivente com a violência, tratando as vítimas como assassinas.
O roteiro não está interessado em entrar no velho jogo de suposições; o barato do filme é compreender a mudança de comportamento daquelas pessoas. Cynthia segura as pontas, dando suporte e ajudando a amiga a se safar, ao mesmo tempo em que tenta controlar Arthur, seu marido, que não quer ver a esposa associada a crimes. Cynthia fica entre a racionalidade de alguém com as mãos limpas e o nervosismo daquela que precisa se esconder. Os extremos são mais interessantes, justamente por apresentarem lados opostos da face humana. Arthur, com sua moral intacta, pensa apenas em proteger sua família, afirmando ter a lei a seu favor. Joyce, sozinha, aguarda pelo consolo da protagonista, imergindo-se numa espiral de traumas e medos. Aos poucos, a perdemos de vista; ela ganha contornos sinistros, dignos de uma psicopata capaz de qualquer coisa para se manter livre. O universo idealizado por Rudolph é opressivo e machista, e não estamos falando de mulheres socialmente privilegiadas. Cynthia e Joyce trabalham juntas num salão de beleza; são alvos fáceis de um sistema que tem seus favoritos.
A protagonista é quem se situa na posição mais ingrata, pois, ao não assumir um compromisso cego com nenhuma das partes, ela observa a falência de ambas as relações. Joyce passa a ser uma presença ambígua, quase uma ameaça, e Arthur opta pelo divórcio, levando as crianças consigo. Interpretado por Harvey Keitel, o policial nos conduz pelas complexidades do caso, notando incoerências na história de Cynthia e levantando questionamentos que a colocam contra a parede – o cineasta é preciso ao fechar o quadro, suscitando ainda mais perguntas. No momento crucial, Rudolph utiliza ângulos holandeses, indicando que as coisas estão prestes a esquentar. Sua abordagem é tão nítida, que, mesmo com a reviravolta no fim, nossa percepção sobre os personagens e a situação não muda – aquelas pessoas continuam sendo vítimas envolvidas em algo que as devora. O elenco é um show à parte. Além de Keitel, que está excelente, temos Bruce Willis, que, com um cavanhaque bizarro, prova ser capaz de dar vida a figuras asquerosas e Demi Moore, que ocupa o centro dramático da narrativa.



