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“Roda Gigante” não representa um desafio para Woody Allen, que está acostumado a lidar com tramas e personagens desse tipo. Ginny, a protagonista, vive em Coney Island, onde trabalha como garçonete, com Humpty, o marido, e Richie, filho do primeiro casamento, que tem um estranho fascínio por atear fogo em lugares inapropriados.

Sua vida, pacata e infeliz, ganha em excitação quando ela conhece Mickey, salva-vidas local e narrador da história. Para a surpresa de todos, Carolina, filha de Humpty, aparece, foragida de seu ex-marido, um gângster que pretende matá-la. Os planos românticos de Ginny sofrem um baque com a chegada da enteada, que atrai a atenção de Mickey, tumultuando uma situação já conturbada. 

Há momentos de um breve vislumbre daquele cineasta que analisava a natureza humana com tamanha complexidade; todavia, Allen não demora a retornar ao piloto automático, que, sendo justo, ainda é capaz de entreter. Ginny diz ser mais do que apenas uma garçonete, mas seu cotidiano faz questão de rebaixá-la a um posto indesejado. Humpty, a princípio, recebe Carolina com rancor; afinal, ela o abandonou num período delicado. No entanto, aos poucos, percebemos que Humpty é, além de um turrão clássico, o conciliador da família. O grande mérito do filme está em seu trabalho de fotografia, que, logo no primeiro enquadramento – um plano geral -, capta a nostalgia e a decadência que cercam Coney Island, um lugar cercado por cores e pessoas que vivem ali por falta de opção. 

Ginny é uma mulher emocionalmente instável. Ao se deparar com uma nova chance, ela não se contém, demonstrando ciúmes, insegurança e entusiasmo com a mesma energia. A fim de destacar tal característica, Vittorio Storaro, diretor de fotografia, opta por intensas transições de cores – por vezes, em um único plano. Enquanto fala sobre sua vida para Mickey, seu rosto vai do vermelho ao azul noturno, ressaltando o caráter vívido de seus sentimentos. O mesmo acontece numa conversa com Carolina, na qual a enteada pede conselhos amorosos e cita Mickey. Nessa sequência, quando Humpty entra no quarto, com a intenção de acalmar a esposa, o vermelho e o azul dialogam entre si, reforçando a posição apaziguadora do homem na casa. No início, o cabelo de Ginny é refletido por uma luz radiante; no desfecho, seu rosto é marcado pela sombra. Em casa, Allen evidencia o distanciamento da protagonista a partir de movimentos suaves de câmera, afastando-a do centro do enquadramento ou colocando-a como figura solitária a ser observada. 

Ginny é a roda gigante do título. A magnitude de suas emoções cobre o tamanho do ponto alto do parque de diversões. Ela vai do topo à base em minutos e, no fim, não sai do lugar. A direção de arte é essencial na fomentação de uma aura nostálgica. O parque de diversões é dominado por cores fortes, funcionando como contraponto para vidas tão ordinárias. A Coney Island idealizada pelos visitantes é diferente da Coney Island real. Mickey é a ponta do triângulo amoroso e o motor que justifica as escolhas estéticas citadas acima. Ele se descreve como um homem sonhador, romântico e apaixonado por teatro. Mickey narra os acontecimentos olhando para câmera. Sob o seu ponto de vista, a narrativa ganha contornos teatrais e melodramáticos, o que é visível no trabalho de fotografia, na reconstituição de época e nas performances. Kate Winslet anda pelos espaços com a urgência de alguém que precisa de uma virada de chave. Guiada por emoções poderosas, a atriz incorpora um exagero teatral sem cair em armadilhas caricatas. O mesmo vale para Jim Belushi, que faz de Humpty uma figura mais interessante do que imaginávamos. 

“Roda Gigante” consegue ser burocrático e ambicioso. Woody Allen não perdeu a magia.

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