Exotica

Exótica (1994)

Em 1994, Atom Egoyan atingiu um nível quase impossível de se repetir. “Next of Kin”, “Speaking Parts”, “The Adjuster” e “Calendar” foram demonstrações de um enorme talento, mas “Exotica” o alçou a um novo patamar. Egoyan forma uma teia de personagens complexos, que não são aquilo que soam à primeira vista. O roteiro e a montagem trabalham numa sinergia fascinante. Cada flashback é essencial, sendo introduzido sempre nos momentos mais oportunos. O diretor constrói uma camada de desejo e sedução, mas está interessado em dissecar o que há por baixo disso. 

O clube Exótica, com suas palmeiras, tons de verde e decoração tropical, assemelha-se a um espaço onírico, onde homens realizam suas fantasias e abraçam um certo nível de perversidade. No palco, Christina se apresenta como uma estudante colegial, excitando os adultos ao som de “Everybody Knows”, de Leonard Cohen. Francis está sempre lá, hipnotizado pela moça, que dança privadamente para ele. O clube é desnorteante, mas Egoyan lida com seres traumatizados, que estão lá por motivos peculiares. O olhar de Francis não denota tesão, apenas fragilidade e dor. Existe um padrão comportamental: a observação, a dança sensual, a ida ao banheiro e o silêncio. Depois, ele deixa Tracey, sua sobrinha, em casa e lhe paga uma quantia por ter “cuidado” de sua casa. Por que Francis faz tudo isso? Qual a natureza de sua relação com Tracey? O que Christina representa? O roteiro apresenta esses personagens como peças de um quebra-cabeça que, aos poucos, é montado. 

Eric, o apresentador do clube Exótica, tem um olhar sinistro e doentio, constantemente atento às andanças de Christina. Os flashbacks nos levam ao momento em que os dois se conheceram. O espaço aberto e as roupas claras estabelecem um forte contraste com o presente, mas a situação em si era trágica: um grupo se reuniu para encontrar uma criança desaparecida. Ali, ambos eram pessoas completamente diferentes. O que levou Christina à vida noturna? Em uma das interações, Eric afirma que, apesar de ter acabado de conhecê-la, não quer deixá-la escapar. Seu quarto, um antro da impessoalidade, tem um colchão largado no chão e uma pilha de cervejas. Sua paixão parece ter se transformado em obsessão. Algo aconteceu naquela relação; Christina não suporta estar próxima a ele. Por motivos óbvios, Eric vê em Francis um adversário. No banheiro, Egoyan pinta um retrato interessante: Francis, em primeiro plano, em uma das cabines, escuta uma voz estranha. Eric, ao fundo, funciona como uma consciência malévola, induzindo o protagonista a burlar as regras do lugar e a ser expulso. Ser proibido de retornar ao clube não é algo simples de processar. Aqueles momentos, de alguma forma, remetiam Francis ao passado – não pela luxúria, mas pela função que Christina exercia em sua vida. Ir ao clube significa manter uma memória acesa; uma memória que o impede de seguir adiante. 

Todos esses personagens estão profundamente conectados em diferentes níveis. Todos sofrem por uma terrível desilusão e por traumas. Mas, além disso, todos fazem parte de uma mesma cadeia de acontecimentos. O terceiro ato concede respostas para as indagações do espectador sem direcionar os personagens para um “novo caminho”. Ainda temos Thomas, um contrabandista de aves raras que está sendo auditado por Francis e que está aprendendo a lidar com a própria homossexualidade. Tracey é a única “inocente”. Seu pai só permite que ela “trabalhe” para o irmão por uma culpa que carregará eternamente. Em um diálogo com Tracey, Francis basicamente sintetiza o filme: o ser humano, em sua trajetória, acumula uma certa bagagem. Egoyan traz à tela personagens que representam esse acúmulo. Eles já foram outra coisa, o que é ressaltado no último e doloroso flashback. Os tons solares, a expressão radiante, a convivência familiar, a doçura de uma jovem que ainda não sabe que caminho trilhar, a aparência jovial e saudável de Francis…

Bruce Greenwood oferece uma performance doída, de poucas mudanças na entonação e na expressão facial. Há algo de ameaçador em seu jeito impassível, mas é a vulnerabilidade que nos salta aos olhos. Greenwood compõe a tragédia encarnada. Elias Koteas também constrói uma dualidade incrível, fazendo de Eric uma figura que esconde sua tristeza por meio de uma persona corrosiva, de entonação sinistra. Mia Kirshner fecha o trio. Sua sensualidade é uma fachada. O uniforme colegial é o símbolo de uma mulher que nunca teve a oportunidade de crescer e ser o que gostaria. 

“Exotica” talvez seja a principal obra-prima do cinema canadense.

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