Sangue Ruim (1986)
Leos Carax filma paixões. Ele resgata uma liberdade formal que surgiu na nouvelle vague com uma roupagem muito peculiar, dotada de uma energia caótica. Carax não é um contador de histórias. Seu cinema é um estado de espírito. Ele usa a linguagem cinematográfica e a corporalidade de seus atores para traduzir sentimentos que, em palavras, não teriam a mesma força. Sim, “Mauvais Sang” tem uma trama que envolve diferentes grupos que querem roubar o antídoto para uma doença sexualmente transmissível, mas isso é completamente secundário, sendo apenas um pano de fundo para o que realmente interessa.
Alex e Lise estão numa floresta, fumando enquanto caminham. A moto surge como um símbolo recorrente da liberdade no cinema de Carax. Alex é órfão. Apelidado de “boca fechada” por ter sido muito quieto na infância, ele quer mudar de vida. E, embora ame Lise, entende que a ruptura precisa ser completa. Não há uma despedida convencional. Ele corre; ela tenta alcançá-lo. A porta do metrô fecha: adeus. Não precisamos de um diálogo para compreender o que está acontecendo. Alex não quer magoá-la, então foge; Lise o ama e se recusa a acreditar que a relação terminou. Os corpos, a correria, a velocidade da imagem… essa é a linguagem de Carax. Por que o cineasta apresenta uma arma por meio de vários planos-detalhe? É uma maneira de expor a determinação do protagonista, que, apesar de não ter interesse no roubo, precisa participar para juntar dinheiro. Talvez também seja uma homenagem a “Acossado”, de Godard. As ruas escuras, de toques acinzentados, não parecem o melhor lugar para um reinício.
O clima soturno, na verdade, combina com a ideia de amor que Carax trabalha em seus filmes. Os protagonistas ficam envoltos em um certo fatalismo. Eles saltam, dançam e correm, como na cena em que Alex escuta “Modern Love”, de David Bowie, mas parecem fadados à tragédia. Esse é o amor para Carax: uma linha de extremos, em que euforia e melancolia se reúnem, sendo inevitáveis. Se existe um arco, ele envolve a filosofia amorosa, não Alex. Quando ele morre (spoiler…), o amor tem seu arco fechado, não o protagonista, que funciona muito mais como uma expressão desse sentimento do que como um ser humano. O espectador não se identifica com Alex, mas com aquilo que ele personifica. Isso se aplica a todos os personagens. Anna, nova paixão de Alex, não é uma jovem particularmente complexa, o que não a torna menos fascinante. O cabelo preto, o pulôver vermelho e o rosto delicado são símbolos de uma idealização fomentada por Carax. Ele filma o rosto de Anna em busca dessa idealização, formando um painel de personificações. Nesse sentido, as cores também cumprem um papel primordial. Anna é associada ao vermelho, ao preto e ao azul – uma combinação que nos direciona ao amor e à tristeza. A figura idealizada, como de costume, leva consigo o fardo de sua condição. Quem, literalmente, move a narrativa é Alex, o apaixonado. Ao carregar a amada no colo, o protagonista, munido de ânimo, derruba um carro. Em outro momento, para fazê-la sorrir, ele faz uma espécie de malabarismo que, de um ponto de vista realista, não faz sentido, mas que transmite exatamente o estado de espírito dos dois.
Binoche, a partir de suas expressões faciais, capta uma graciosidade raríssima – Carax nos faz entender o impacto que ela causa em Alex. Deitada e cabisbaixa, a atriz traz à tona uma aura melancólica, contornada pelas “investidas” do protagonista. “Preciso alimentar os olhos para os sonhos”, diz Alex, explicando à amada porque a observa. Marc, namorado de Anna e líder do grupo, é um homem mais velho, menos tocado pela ideia do amor – os universos de Carax são joviais. Em uma briga entre Marc e Alex, o diretor opta por uma encenação cartunesca, que atrai risos, não nervosismo. Essa preocupação com a liberdade formal, fugindo de lugares comuns, dialoga com a sensação de estar apaixonado: sentir-se livre, em estado de graça. A narrativa inteira está atrelada a isso, não ao roubo. Os fades pouco usuais, o voiceover, os planos fechados, as gags visuais, a corporalidade de Denis Lavant, colaborador habitual de Carax, e a alternância na frequência da imagem são elementos que compõem uma ideia, não uma história. A ideia de que o amor é a síntese humana, de que o jovem romântico é uma figura extrema, de que paixões são paradoxais e belas. Em uma rápida interação, vemos Alex de um lado e, do outro, Anna entre Marc e Hans, o outro membro do grupo – ali, na sutileza da mise en scène, está a impossibilidade daquele amor.
Lavant é um artista inimitável. Ele tem um quê de Chaplin e Keaton; todavia, muito mais do que comicidade, suas performances corporais são um ímã de emoções. O rosto de Julie Delpy, o outro elo da relação romântica, é igualmente potente. Como Carax salienta a tristeza de Lise ao estar distante de Alex? Em uma ligação, ela é fotografada em preto e branco – uma escolha, simultaneamente, ousada e simples.
“Mauvais Sang” é lírico e radical. Uma experiência visceral, porque Leos Carax entende as nuances do amor e as traduz em cinema, sem se apoiar em diálogos expositivos.

